"Há na loucura um prazer que só os loucos conhecem." (John Dryden)

sexta-feira, 23 de março de 2012

TEXTO SOBRE CLINÍCA

GRUPO OUTROLHAR

CONSTRUINDO UMA REFLEXÃO SOBRE CLÍNICA

            Para ampliar nossas conversas sobre clínica, sugiro a leitura de artigos, textos, capítulos de livros, etc., que possam levantar questões acerca da relação que se estabelece com o paciente. A intenção reside na busca por um sujeito lá onde a segregação, a dificuldade de colocar em palavras verbais, a falação (o desabafo) e o silêncio (como forma de dizer) anunciam a possibilidade de eclosão de uma pessoa que busca o rumo de seus processos de sofrimento e “cura”.
            Quer dizer, entre o tempo de observar (a cena, a manifestação do paciente, a encenação do contexto, suas histórias de vida) e momento de concluir (o quê?), requer um tempo importante e essencial de compreender. Alunos e professores precisamos lidar com o silêncio entre uma pergunta e uma resposta (que pode ser um silêncio verbal), quer seja na relação entre alunos, entre professores e alunos, bem como entre pacientes e alunos, etc.
            O fazer CLÍNCA mostra-se imperativo nesse atravessamento que nossas discussões no GRUPO tem nos feito chegar bem perto. Não poderia ser inoportuno a temática da Saúde Mental neste contexto como norteamento dessa discussão, não excluindo outros campos do conhecimento, mas fazendo jus à existência de nosso GRUPO que por hora se inaugura. A questão é o diálogo dos saberes: os investidos (a experiência), os constituídos (protocolares, científicos, etc.), além da troca entre os mesmos para o advento de novas perspectivas clínicas no campo da medicina.
            Assim, sugiro que façamos uma leitura de alguns, são eles em ordem de complexidade/importância:


  1. CAMPOS, R. T. O & CAMPOS, G. W. S. Co-construção de Autonomia: o sujeito em questão. In: Tratado de Saúde Coletiva. CAMPOS, G. (org et al.). Editora: Hucitec, Fiocruz, São Paulo-Rio de Janeiro, 2009, p. 669-688.

  1. MERHY, E. E. Um ensaio sobre o médico e suas valises tecnológicas: fazendo um exercício sobre a reestruturação produtiva na produção do cuidado. In: Saúde: a cartografia do trabalho vivo. Editora: Hucitec, 2005, p. 93-112.

3.      BARROS, V. A & SILVA, L.R. A Pesquisa em História de Vida. In: GOULART, I. B. Psicologia Organizacional e do Trabalho; teoria, pesquisa e temas correlatos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002, p. 133-146.

  1. CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense. 4 ed, 1995, cap IV – Doença, Cura e Saúde, p. 144-163.

  1. BASAGLIA, F. O. Saúde/doença. In: AMARANTE, P. & CRUZ, L.B. Saúde Mental, Formação e Crítica. Rio de Janeiro: LAPS, 2008, p. 17-36.

6.      METIPOLÁ.  A Clínica e seus impasses. Oficinas: Expressões. O cotidiano e suas bordas. Revista do CERSAM Leste: Centro de Referência em Saúde Mental da Regional Leste de Belo Horizonte, 1997, p. 4-26.

7.      LOBOSQUE, A. M. Princípios para uma clínica antimanicomial e outros escritos. São Paulo: Hucitec, 1997. 96p.

8.      LÉVY, A. Ciências Clínicas e Organizações Sociais: sentido e crise do sentido. Belo Horizonte: Autêntica, p. 19-30.

9.      VIGANÓ, C. A construção do caso clínico. In: Psicanálise e Saúde Mental. Curinga/Escola Brasileira de Psicanálise – Minas Gerais, 1999, p. 50-59.

10.  BORGES. M. E. S. Trabalho e uso de si – para além dos “recursos humanos”. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 2004, vol 7, PP. 41-49.

Agora, para estabelecermos uma conversa/parceria com a equipe do PAI-PJ e do LABTRAB da UFMG, sugiro a leitura obrigatória dos seguintes artigos:

  1. BARROS, Fernanda. Otoni. A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO AO LOUCO INFRATOR. Acrise: desafio estratégico da Reforma. Editora: Hucitec. Saúdeloucura, nº 9, 2009, p. 125-136.
  2. LIMA, M. E. A. Esboço de uma crítica à especulação no campo da saúde mental e trabalho. In: SAÚDE MENTAL & TRABALHO: Leituras. Petrópolis: Editora Vozes, 2003, p. 50-81.


Acho que os referidos artigos se bem lidos e analisados, trarão um ponto vista muito interessante sobre CLÍNICA – não somente a clínica no campo da Saúde Mental...

Abraços,

Enio Rodrigues,

sexta-feira, 2 de março de 2012

Leopold Auenbrugger - Músico Criador do Revolucionário Método de Examinar os Pacientes Através da Percussão das Cavidades

“A Auenbrugger pertence esta bela descoberta”. Jean-Nicolas Corvisart (1808)
Como o austríaco Auenbrugger, memorável personagem do universo médico, mudou completamente o modo de detectar as doenças que acometem as cavidades orgânicas?

As coisas se deram mais ou menos assim: até o século dezoito os principais meios diagnósticos disponíveis consistiam em ouvir adequadamente a história do paciente, inspecioná-lo, contar a freqüência respiratória e o pulso. Aferir a temperatura ainda era algo novo e não constava no exame padrão recomendado pelos professores da época. Estetoscópio? Nem pensar, ainda não existia (seria inventado por Laennec décadas mais tarde). Se uma determinada cavidade do corpo, a chamada caixa torácica, por exemplo, fosse acometida por uma doença qualquer, se enchia de um líquido estranho e os médicos não tinham outra forma de detectar a agressão senão no exame pós-morte, a autópsia. Com o mal longe dos olhos e das mãos dos médicos os danos eram inexoráveis.

Aí aparece a inventividade do nosso personagem, o médico e flautista Joseph Leopold Auenbrugger. Filho de um estalajadeiro, o médico aprendeu com o pai a avaliar a quantidade de vinho de uma barrica pela percussão. Quando se formou em medicina, teve a idéia – diz-se ele – de adaptar tal procedimento ao exame do doente. Ele foi o criador de um novo e revolucionário modo de examinar os pacientes: a percussão das cavidades orgânicas. Músico, ele estava familiarizado com coisas como ressonância, timbre, altura do som, o que lhe ajudou muito em seus estudos sobre o novo método.

Em condições normais as vibrações produzidas pela percussão do tórax são abafadas devido a grande diferença acústica observada entre a parede torácica e o parênquima pulmonar. Se o parênquima é substituído pelo ar, como ocorre na situação conhecida como penumotórax, a diferença acústica se acentua ainda mais, e o abafamento do som se torna mais pronunciado. O resultado é um som de maior amplitude e duração, francamente musical, descrito sempre como “timpânico” (em referência ao tímpano) instrumento musical presente em qualquer orquestra sinfônica da atualidade. Se o tecido pulmonar é preenchido por líquido ou algo sólido, a dita diferença acústica é minimizada e o som produzido se torna de baixa amplitude e curta duração, descrito usualmente como “surdo”.

Na literatura: Em 1761, o famoso médico publicou seu Inventum Novum ex Percussione Thoracis Humani, obra escrita em latim, de 97 páginas, que apresentou o revolucionário meio de investigação das cavidades orgânicas. Ao apresentar sua obra à comunidade científica, Auenbrugger escreveu:

Apresento ao leitor um novo método para detecção de doenças, descoberto por mim. Consiste na percussão do tórax e na avaliação das condições internas da cavidade de acordo com a ressonância do som assim produzido. Minhas descobertas não foram antes confiadas ao papel por causa de um incontrolável impulso ou pelo desejo de teorizar. Sete anos de observação tornaram o assunto claro pra mim, o suficiente para que me sinta em condições de publicá-lo. Sei que encontrarei oposição às minhas opiniões. A inveja e a acusação, o ódio e a calúnia sempre foram o ônus daqueles que iluminaram a arte ou a ciência com suas descobertas. Leopold Auenbrugger (1761).
De fato, somente 46 anos depois, quando o clínico francês Jean Nicolas Corvisart, médico pessoal de Napoleão Bonaparte, introduziu o método percussivo na prática clínica e divulgou sua tradução em francês do trabalho de Auenbrugger é que a importância do invento foi definitivamente estabelecida.

REFERÊNCIAS:
1. Sakula, Alex. Auenbrugger: Opus and Opera. J.Roy. College Physicians,Vol 12; 1978.
2. Souza, Álvaro N. – Grandes médicos e grandes artistas – nomes que deram vida a medicina e as artes. – Salvador, BA, 2006.
3. SCLIAR, Moacyr, "A Paixão Transformada", Companhia das letras, São Paulo, 1996

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Mãe com Criança Enferma", de Pablo Picasso



Em toda a história da arte, talvez nenhum conjunto de obras artísticas visuais reflita tão bem a miséria humana como as pertencentes ao período azul  dePablo Picasso (1881-1973) .

A fase é basicamente caracterizada pelo predomínio de cores sombrias, como o azul e o verde. São obras impregnadas de melancolia, tristeza e pessimismo.

São exemplos de temas explorados nessa fase: trabalhadores exaustos, mendigos, meninos de rua, alcoólatras, idosos, doentes, amantes desesperados, mães e crianças abandonadas.

 
"Mãe com criança enferma". Pablo Picasso, 1903. Metropolitan Museum of Art, New York.

A figura feminina retratada na pintura acima é uma prostituta, acometida por sífilis, que Picasso conheceu ao visitar o Hospital de Saint Lazare, em Paris. A mulher, abandonada, buscava ajuda para seu filho doente.

Vê-se expresso no rosto da mãe a solidão de sua condição. Seu filho, desnutrido, aparece envolto num manto que ameniza a imagem de sua tristeza e desolação.

O pintor enfatiza tanto os olhos suplicantes dos personagens, que aparecem fixos no espectador, quanto a magra mão da jovem mãe, que agarra seu filho mantendo o gesto de carinho e proteção enquanto aguarda auxílio.

REFERÊNCIAS:
Solar, Ma Dolores Villaverde. “Achaques, dolencias y padecimientos en la mujer a través de la pintura/Ailments, ilness and sufferings in woman through painting”. January 1, 2010.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"O Médico Doente", de Drauzio Varella


Drauzio Varella , formado em Medicina pela USP, é um médico brasileiro que estreitou a ligação da ciência à arte. Notável escritor, publicou Estação Carandiru, obra que ganhou os prêmios Jabuti e Livro do Ano. Dentre outros livros, é autor também de Por um Fio e Borboletas da Alma.

Cancerologista há mais de quarenta anos, Drauzio convive com pacientes terminais diariamente. A estreita ligação com o tema, entretanto, não o preparou para viver a situação inversa.

 
Mal fechei os olhos, o quarto foi invadido por um batalhão de enfermeiras e auxiliares perguntando-me se apresentava alguma alergia, queixa cardíaca, pulmonar, urinária ou digestiva. Enquanto respondia a uma delas, outra instalava o aparelho de pressão em meu braço, e uma terceira colocava o termômetro e enlaçava a pulseira de identidade. Um técnico de laboratório passou um garrote para colher sangue e ligar o frasco de soro: ‘Vou dar uma picadinha’. Foi o primeiro de uma série de diminutivos que viriam a ser pronunciados. [...] O emprego do diminutivo infantiliza o cidadão. Deitado de camisola e pulseirinha, sem forças para agir por conta própria, cercado de gente que diz ‘Vamos tomar um remedinho’; ‘Abre a boquinha’; ‘Levanta a perninha’... há maturidade que resista?

Ao retornar de uma viagem à Floresta Amazônica em 2004, Varella sentiu um mal estar associado à febre e, após um período de relutância obstinada, interrompeu o atendimento em seu consultório e aceitou repousar. Dias depois, foi internado. As incertezas quanto ao diagnóstico cresciam conforme aumentava a febre.

Acompanhando de perto a aflição dos colegas, o paciente viu-se na angustiante posição de compreender melhor do que o doente comum a gravidade de seu caso. Astênico, com a mente embaraçada pela doença e pela morfina, ciente da gravidade de sua situação, o médico passou a considerar a possibilidade de que seus dias estavam contados.

Em “O Médico Doente”, o autor narra sua experiência sob a ótica clínica e cirúrgica. Do leito hospitalar ele retorna aos caminhos que o levaram à profissão e revela os sentimentos de um médico impotente, à beira da morte.

REFERÊNCIA:
1.Varella, Drauzio. “O Médico Doente”. Companhia das Letras, São Paulo, 2007.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sinfonia da dor: Impactos da surdez na vida e obra de Beethoven

Sinfonia da dor: Impactos da surdez na vida e obra de Beethoven

"Quando encontro-me em profundo desespero, tenho paciência e penso: todo o mal traz consigo algum bem." Ludwig van Beethoven

É bem conhecido que o admirável músico alemão foi atormentado por uma progressiva surdez durante grande parte de sua vida. Essa condição levou o gênio a um isolamento social extremo devido ao qual sofreu grave depressão. Paradoxalmente, foi nesse momento que Beethoven alcançou uma linguagem musical ímpar em termos de emoções, chegando ao ápice do sucesso de sua carreira.

Através de fragmentos extraídos de textos escritos pelo próprio compositor, podemos conhecer o processo que culminou na grave deficiência auditiva, bem como avaliar a profunda angústia que esta lhe causou.


SURDEZ

Os primeiros sintomas ocorreram em Viena, tinha Ludwig os seus 26 anos de idade. Iniciada precocemente com um estranho zumbido, a surdez foi progredindo, até alcançar um estado irreversível de grave deficiência auditiva.

Numa carta ao amigo e médico Franz Gerhard Wegeler, datada de 21 de junho de 1801, o maestro refere detalhadamente a progressão dos sintomas, os tratamentos propostos por vários médicos, obviamente inúteis, e a angústia provocada pela ineficácia dos métodos empíricos.

Você tem tido notícia da minha situação? Os meus ouvidos nos últimos 3 anos estão cada vez mais fracos. Frank, o diretor do Hospital de Viena, procurou retonificar o meu organismo com tônicos e meus ouvidos com óleo de Mandorle. Não houve nenhum efeito, a surdez ficou ainda pior. Depois um asno de um médico me aconselhou banhos frios, o que me levou a ter dores fortes. Outro médico me aconselhou banhos rápidos no Danúbio, todavia a surdez persiste, as orelhas continuam a rosnar e estalar dia e noite. Te confesso que estou vivendo uma vida bem miserável. Há quase 2 anos me afastei de todas as atividades sociais, principalmente porque me é impossível dizer para as pessoas : Sou surdo !... Se minha profissão fosse outra, talvez poderia me adaptar à minha doença, mas no meu caso a surdez representa um terrível obstáculo. E se os meus inimigos vierem a saber ? O que falarão por aí? Para te dar uma ideia desta estranha surdez, no teatro eu tenho que me colocar pertíssimo da orquestra para entender as palavras dos atores e a uma certa distância não consigo ouvir os sons agudos dos instrumentos e do canto. Surpreendentemente, nas conversas com as pessoas muitos não notaram minha surdez, acreditam que eu sou distraído. Muitas vezes posso ouvir o som da voz mas não entendo as palavras, mas se alguém grita eu não suporto ! O doutor Vering me disse que certamente meu ouvido melhorará, se isso não for possível tenho momentos em que penso que sou a mais infeliz criatura de Deus.

Em de novembro de 1801, Beethoven, cheio de esperanças, reescreveu à Wegeler:

O que você pensa do doutor Schmidt? Parece ser um outro homem. Me contam maravilhas dele. O que você acha? Um médico me disse que viu em Berlim um menino surdo-mudo começar a ouvir e um homem surdo por sete anos se curar totalmente.

Chegou a consultar-se com o doutor Schmidt, que apenas recomendou que descansasse em Heilingenstadt, pequena aldeia proxima à Viena.

DEPRESSÃO:

E foi em Heilingenstadt que Beethoven atingiu a plenitude de seus pensamentos musicais. Lá também, escreveu o Testamento de Heilingenstadt, documento que nos prova o drama psicológico vivido pelo compositor em seu isolamento. A depressão do maestro, em parte, foi reflexo de sua doença, mas não deixemos de mencionar que, filho de um pai rígido e rude, Beethoven parece ter tido uma infância bem infeliz, o que, de fato, influenciou muito na crise que quase o levou ao suicídio.

Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos. [...]Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Foi a arte, somente a arte, que me salvou. Ah, parecia-me impossível deixar o mundo antes de ter dado tudo o que ainda germinava em mim![...]Esta foi minha vida, angustiosa. Quando lerem estas linhas saberão que aqueles que de mim falaram, cometeram grande injustiça. Peçam ao Dr. Schmidt para descrever minha doença para que o mundo possa se reconciliar comigo, ao menos após minha morte. Ludwig van Beethoven, in Testamento de Heilingenstadt, 6 de Outubro de 1802. [O testamento foi encontrado em Viena, numa pequena escrivaninha, anos após a sua morte.]

ESTUDOS PATOGÊNICOS:

Inúmeras hipóteses têm surgido para determinar as condições patológicas que causaram a surdez do músico, mas apesar das diversas propostas, a verdadeira natureza ainda é desconhecida. Segundo alguns autores, a perda progressiva e o zumbido tipo chiado referido por Beethoven são sintomas característicos de otosclerose. Um artigo mais recente defende que se trata de uma surdez tipo mista, devido ao início precoce, bilateral, simétrico e de evolução diferente de cada lado. Considera-se também a hipótese de que o ouvido interno pudesse ter sido acometido por uma neurite tóxica, infecciosa ou luética.

Dados da autópsia realizada no dia seguinte de sua morte:

"A cartilagem do pavilhão é grande e irregular. O meato acústico externo próximo ao tímpano mostra descamações epiteliais. A trompa de Eustáquio tem mucosa espessa e a parte óssea estreita. As células mastoideas e o parte petrosa do osso temporal principalmente próximo à
cóclea está hiperêmico. Os nervos acústicos estão atróficos e desmielinizados. As artérias auditivas estão dilatadas e escleróticas”. por Johann Wagner e Karl Rokitansi

A CRIAÇÃO - NONA SINFONIA:

Proporcionalmente ao processo de perda de audição, surgiram sons que “gritavam” na cabeça de Beethoven, sons estes que, segundo ele, expressavam sua alma e sua vida. Foram esses sons que deram origem a sua obra-prima. Completada em 1824, quando já quase completamente surdo, foi a última sinfonia composta por Beethoven. A mais conhecida obra do compositor foi apresentada pela primeira vez em Viena. O músico que regeu a sinfonia foiMichael Umlauf, na época também diretor do teatro. Beethoven hesitou a regência graças ao avançado estado de sua surdez. Ao término da apresentação, o artista não pode perceber que estava sendo ovacionado. Umlauf teria ido a ele e o virado em direção ao público para aceitar seus aplausos.

Abaixo, um vídeo com a representação da Nona sinfonia em sua estréia. Faz parte de “Beloved Immortal”, um filme magnificamente dirigido por Bernard Rose. O vídeo evidência a surdez diante da orquestra, a forma como a música “gritava em sua cabeça” fazendo-o ouvir enquanto relembra cenas da própria vida e Umlauf virando-o para receber os aplausos.



"Abracem-se milhões! Enviem este beijo para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado Mora um Pai Amado. Milhões se deprimem diante Dele? Mundo, você percebe seu Criador? Procure-o mais acima do Céu estrelado! Sobre as estrelas onde Ele mora!" - Ode an die Freude, Schiller, 1786. (Nona sinfonia, quarto movimento).

Através da inevitável solidão Beethoven alcançou uma linguagem musical cheia de emoções, que provavelmente nunca teria conseguido em condições físicas normais. Já que não podia ouvir o mundo, a voz criativa que havia em si manifestou-se plenamente. Talvez a própria surdez, por isolá-lo do mundo e colocá-lo entre as estrelas, tenha sido uma das principais colaboradoras de sua genial obra.

REFERÊNCIAS:
http://medicineisart.blogspot.com/search/label/Otorrinolaringologia 
1.MORRIS, EDMUND “Beethoven” , OBJETIVA, 2007.
2.BENTO, R. “A Surdez de Beethoven, O Desafio de um Gênio” Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol.,São Paulo, v.13, n.3, p. 317-321, 2009.
3. Beethoven, Ludwig, "testament", Heiglnstadt, 6 de octubre de 1802.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

QUARTO DE BADULAQUES - RUBEM ALVES

Aos jovens que desejam ser médicos: Eu também desejei muito ser um médico. Por que não fui, nem sei explicar direito. Mas na minha juventude os médicos eram diferentes dos médicos de hoje. Tinham de ser porque o mundo era diferente Os hospitais eram raros e raros também eram os laboratórios. Como um Sherlock Holmes, valendo-se de pistas mínimas, o médico tinha de descobrir o criminoso que deixava suas marcas no corpo do doente.

Naqueles tempos a inteligência era muito importante. Por esse Brasil afora os médicos eram, frequentemente, heróis solitários que atendiam unha encravada, cachumba, desidratação, bronquite, pneumonia, parto, prisão de ventre, resfriado, crupe, disenteria, gonorréia, berne, conjuntivite, furúnculo, hemorróidas, lombriga, dor de garganta, coqueluche, tosse de cachorro, verruga, indigestão... E tinham de ser humildes porque as derrotas na luta contra a morte e o sofrimento eram mais frequentes.Vocês poderiam ler a estória do Jeca Tatuzinho, do Monteiro Lobato, distribuidos mais de oitenta milhões de exemplares.

Com meus cinco anos eu sabia a estória do Jeca Tatuzinho de cor e a “lia”, compenetrado, para minha tia Noemia que estava doente... Com frequência o médico recebia como pagamento um frango, duas dúzias de ovos, um leitão – mais a eterna gratidão de quem tinha sido atendido e não podia pagar. Deus no céu, o “doutor” na terra, eram as valias dos pobres. O médico que me inspirou, que era o meu modelo... E por falar em modelo, que médico é o seu modelo? Há um médico que seja objeto da sua admiração, alguém que você deseja ser como ele? Antigamente os modelos eram de carne e osso. Hoje os modelos são mais abstratos, tipos ideais, como se tivessem perdido o rosto. Os modelos deixaram de ser pessoas e passaram a ser uma especialização profissional.

Mas, como eu dizia, o meu modelo foi Albert Schweitzer, sobre quem já escrevi uma crônica que está no livro “O médico”. Hoje, quando se pensa num médico, pensa-se em alguém portador de um conhecimento especializado: a lista deles se encontra no catálogo da UNIMED ... Cada médico é uma unidade bio-psicológica móvel portadora de conhecimentos especializados e que executa atos sobre o corpo do paciente... Naqueles tempos era diferente. Os médicos tinham sim, conhecimentos e executavam atos sobre o corpo do paciente. Mas o que os caracterizava, mesmo – pelo menos no imaginário popular – era o fato de que eles eram seres movidos por compaixão.

Eles eram muito amados, tomavam café com bolo de fubá depois das visitas nas casas. Compaixão, nas suas origens etimológicas, quer dizer “sofrer com um outro”. A compaixão é, talvez, a mais humana das nossas características. Toda pessoa que procura um médico está sofrendo. O “paciente” é aquele que sofre. Há sofrimentos dos mais variados tipos, das hérnias de disco e cálculos renais até a absoluta falta de apetite e a tristeza. O médico, que pode não estar sofrendo nada ( se ele estiver sofrendo será um médico mais compassivo... ), sofre um sofrimento que não é seu, é de um outro. E é só porque ele sofre com os sofrimentos dos outros que ele se impõe a disciplina de estudar, pesquisar e desenvolver habilidades: para que o outro sofra menos ou deixe de sofrer. A medicina nasceu da compaixão. Albert Schweitzer era uma pessoa muito especial. Desde menino sofria com o sofrimento de todas as coisas vivas, os mínimos animais e até mesmo com o capim cortado pela foice. Se disserem que ele deveria ter alguma perturbação mental eu direi que vocês provavelmente estão certos.

Esse tipo de sensibilidade não se encontra no normal das pessoas. Mas é precisamente essa sensibilidade exacerbada que caracteriza os grandes homens e as grandes mulheres. São Francisco, Chopin, Cecília Meireles, Madre Tereza de Calcutá, Nietzsche, Faure, Gandhi foram todos pessoas de sensibilidade exacerbada. Por causa deles o mundo ficou melhor e mais bonito. O que faz um médico não são os seus conhecimentos de ciência médica. A ciência médica é algo que lhe é exterior e que ele leva consigo, como se fosse uma valise. Os conhecimentos científicos, qualquer pessoa pode ter. Mas a alma de um médico não se encontra no lugar do saber mas no lugar do amor. O médico é movido pela compaixão. Albert Schweitzer transformou esse sentimento num princípio ético que todo médico deveria ter afixado no seu consultório, para não se esquecer: Reverência pela vida.

Toda vida, a mais ínfima, é sagrada. E foi movido por esse sentimento que aos trinta anos começou os seus estudos de medicina e foi exercê-la, pelo resto de sua vida, num lugar abandonado do coração da Africa chamado Lambarene. Mas eu me surpreendi com uma informação absurda, de que teria havido trotes sem compaixão a que os veteranos de uma escola de medicina de Campinas teriam imposto aos seus novos companheiros. Porque isso está em desacordo com tudo o que sempre pensei sobre a alma de um médico. Em alguns lugares está surgindo uma coisa bonita: o trote amigável. Cerca de 130 calouros foram trabalhar um dia inteiro na Fundação Síndrome de Down, na maior alegria: esse foi o seu trote. Mas o trote clássico, como já está sugerido pelo nome, é algo que revela um caráter cavalar.

Mas, retiro o que disse. Porque nunca pude observar entre os cavalos qualquer comportamento que se assemelhe ao trote. O trote revela a alma dos que o fazem: eles sentem prazer em humilhar e fazer sofrer os seus novos colegas. Trata-se de uma deformação de personalidade idêntica àquela que se apresenta também nos torturadores e que tem o nome de sadismo. É revelador que o trote não seja feito por um indivíduo isolado, às claras. O indivíduo solitário não dá trote, por medo. Ele se sente fraco. É covarde. Para dar o trote ele se refugia no grupo – o que o faz sentir-se forte - e no anonimato – que lhe dá sentimentos de impunidade. E assim, protegido pelo grupo e pela impunidade, ele deixa aflorar seus impulsos bestiais. Corrijo-me de novo.

Não conheço nenhum animal que sinta prazer no sofrimento dos outros... Fico então a pensar: esses tipos estão no processo de se tornarem médicos. Mas é óbvio que lhes falta o essencial do caráter médico. É urgente, então, que sejam tomadas providências no sentido de impedir que isso aconteça, e que tais jovens sejam encaminhados para outras profissões mais em harmonia com o seu carater como, por exemplo, as lutas marciais e o box. E que não me venham com a desculpa de que isso é coisa passageira, brincadeira de moços. Não é. O que o trote revela é um componente sádico da personalidade que não pode ser eliminado.

O máximo que pode acontecer é que esse prazer em produzir sofrimento nos outros vá encontrar outras formas de expressão nas relações de trabalho, conjugais e parentais. Espero que vocês, calouros de uma vocação tão bonita, não sejam movidos pela tentação de vingança contra os calouros do ano que vem. Que o seu trote seja generoso, amigo e se traduza em algo feito em pról da comunidade. Espero que vocês sejam movidos pela reverência pela vida.

Os primeiros colocados nos exames vestibulares: Já faz anos que os cursinhos publicam as fotografias dos seus alunos que foram colocados em primeiro lugar nos exames vestibulares. Tais alunos bem que merecem pois se trata de um feito extraordinário. Mas eu gostaria mesmo é que alguém fizesse uma pesquisa sobre o destino profissional desses gênios de memória. É preciso não confundir memória com inteligência.

Inteligência emocional: Fez e ainda faz muito sucesso um livro com esse título, Inteligência Emocional. Mas o meu amigo, professor Eduardo Chaves, fez uma observação muitíssimo correta: “Não existe inteligência emocional. O que existe é emoção inteligente.” É a emoção que busca inteligência, para realizar os seus sonhos. A inteligência é ferramenta da emoção. A inteligência, em si mesma, não sente necessidade alguma da emoção.
Peixe Grande e suas histórias maravilhosas: Um filme delicioso! Leveza, humor, fantasia, realidade. Somos a histórias que contamos para nós mesmos...

“Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. ‘Serei sua’, disse ela, ‘quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho, no meu jardim, embaixo da minha janela.’ Mas, na nongésima nona noite o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi” ( Barthes, Fragmentos do discurso amoroso, p. 96).

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A Diretoria do Grupo Outrolhar

terça-feira, 4 de outubro de 2011

SEMINÁRIO - Um OUTROLHAR sobre a dependência química.

Cronograma do Seminário sobre Dependência Química no dia 06/10 das 18:00 às 20:30 no auditório do CEASC (Campus Líbano) realizado pelo Grupo Outrolhar de Saúde Mental e Núcleo de Apoio Psicopedagógico do Estudante de Medicina da UNIFENAS-BH (NAPEM). 

18:00 – ABERTURA
Coordenador do Câmpus: Prof. Fuad Haddad – UNIFENAS/BH.
Coordenadora do Curso de Medicina: Profa. Dra. Rosa Malena Delbone de Faria – UNIFENAS/BH.

18:15 – O Grupo OUTROLHAR de Saúde Mental – Percurso e responsabilidades
Presidente: Albert Nilo – acadêmico do VI período do curso de Medicina da UNIFENAS/BH.

18:30 - INTRODUÇÃO À DEPENDÊNCIA QUÍMICA
Professor do Curso de Medicina: Alexandre de Araújo Pereira – UNIFENAS/BH

19:00 - RODA DE CONVERSAS
Professores da UNIFENAS/BH: Enio Rodrigues da Silva, Lúcia Helena Garcia Bernardes e Paulo Brasil. Os referidos professores farão uma reflexão sobre o assunto e, em seguida, uma intermediação de conversas com a platéia.

20:30 - ENCERRAMENTO 


As inscrições serão GRATUITAS e feitas através do envio de um email com o nome COMPLETO para o seguinte endereço: 
inscricoesoutrolhar@hotmail.com. 

As inscrições também poderão ser feitas no dia do evento com antecedência de 30 minutos (de 17:30 até às 18:00) na portaria do auditório do CEASC.



O Grupo OUTROLHAR,
Agradecemos a todos!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

EVENTO SOBRE DROGAS - Reportagem Revista ÉPOCA

Reportagem feita pela revista ÉPOCA mostrada na reunião.

INTERNAR A FORÇA RESOLVE?


Revista Época
A boca ferida, maltratada pelo uso contínuo de cachimbos precários, era uma das poucas partes do rosto de R. que o cobertor marrom e sujo deixava entrever. O corpo miúdo poderia facilmente ser confundido com o de um garoto de 14 anos. Os passos que o conduziam para fora da Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, eram apenas resignados, não mais relutantes.
Enquanto caminhava, R. experimentava momentos de lucidez nos quais tentava resumir sua trajetória. Aos 25 anos, viciado em crack, sem ter onde dormir, exceto a rua, ele enfrentava o quarto dia sem comer. No dia 19 de julho, foi encontrado e levado à força pela equipe da Secretaria de Assistência Social do município do Rio de Janeiro. “Se for a salvação para mim, eu vou. Sabe por quê? Porque eu tô vendo que se eu ficar aqui, fumando oito, nove pedras por dia, eu não vou aguentar mais. Eu vou morrer.” Antes das 10 horas da manhã, R. já embarcara numa das quatro vans da prefeitura que levaria os usuários de crack recolhidos ali à delegacia e, depois, a algum abrigo para tratamento de dependentes químicos.
A ação da Secretaria de Assistência Social carioca é estridente. Desde maio, três vezes por semana, os agentes sobem os morros da cidade que continuam sob domínio do crime organizado para levar, na marra, os dependentes de crack que povoam as cracolândias da cidade. ÉPOCA acompanhou uma dessas operações no final do mês passado. O trabalho só é possível porque é apoiado por policiais civis e militares, empunhando armas de grosso calibre. Antes dos agentes, o blindado da PM conhecido como “caveirão” sobe o morro. Há troca de tiros entre a polícia e traficantes. Abordados pelos agentes, os usuários costumam reagir de modo arredio. A resposta vem na mesma proporção. O porte físico avantajado e a experiência como segurança de boate, constantes entre os agentes da secretaria, possibilitam que eles terminem por dominar os dependentes, embora com dificuldades.
As operações já resultaram no acolhimento de 1.319 pessoas (1.065 adultos e 254 crianças e adolescentes) em cracolândias. Segundo a prefeitura do Rio, nas áreas onde os viciados são tirados das ruas, o índice de pequenos roubos e furtos costuma cair até 50% nos primeiros dias. Depois de levados das favelas, crianças, adolescentes e adultos têm destinos diferentes. Todos os menores de 18 anos encontrados, de quem o Estado passa a ser o tutor, ficarão cerca de três meses internados contra a própria vontade (e de sua família, eventualmente) em alguma unidade terapêutica da prefeitura. São casas com psiquiatras, clínicos gerais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e grades. Grades por todos os lados. A prefeitura do Rio está convencida de que, sem elas, de nada adianta ter os melhores profissionais. A recuperação seria inviável. Ainda assim, nem sempre se consegue evitar a fuga dos pacientes. Para os adultos, a internação compulsória ainda não é a regra, embora já ocorra em alguns casos, sempre autorizados por um juiz. A prefeitura do Rio afirma que gostaria de adotá-la em larga escala, mas que ainda não encontrou um meio legal de promovê-la.
A medida de internação à força do Rio de Janeiro é pioneira, tem provocado polêmica, mas conquistado cada vez mais adeptos entre os gestores públicos. No Congresso, tramita um projeto de lei que propõe extinguir a necessidade de ação judicial para internar alguém à força. No governo federal, há autoridades simpáticas à ideia. Em São Paulo, onde há a maior cracolândia do país, depois de dois anos de uma política de convencimento de dependentes para que aceitassem voluntariamente ser tratados, a experiência carioca poderá ser repetida em breve. A Procuradoria-Geral da cidade deu um parecer favorável à internação compulsória de usuários de crack. A decisão agora cabe ao prefeito Gilberto Kassab, que já admitiu publicamente ver a internação forçada como uma resposta para o histórico problema do município. Estima-se que, pela cracolândia paulistana, perambulem quase 2 mil pessoas diariamente. A internação na marra funciona? Representa uma solução para as famílias que sofrem o drama de ter dependentes em crack?
A despeito das críticas daqueles que veem na proposta apenas uma tentativa de limpar as ruas, diversos motivos empurram os governantes à medida extrema da internação compulsória. A droga surgiu no Brasil no fim da década de 1980 e ficou restrita aos grandes centros urbanos e às populações de classe baixa por mais de uma década (leia o quadro abaixo). Nos últimos anos, o crack se espalhou pelo país, atingiu todas as classes sociais e ganhou contornos de epidemia. Nas eleições presidenciais do ano passado, o combate à droga emergiu como um dos assuntos mais discutidos da campanha. Na ocasião, a então candidata petista, Dilma Rousseff, chegou a declarar que o crack era “uma das questões mais desafiantes” de sua futura gestão.
Não existem estatísticas sobre o número de usuários no Brasil. Uma estimativa feita pela Frente Parlamentar Mista de Combate ao Crack, com base nos dados do Censo de 1999 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sugere que eles sejam 1,2 milhão de pessoas. O governo federal deverá divulgar nas próximas semanas os resultados da maior pesquisa já feita sobre o assunto no país. Foram ouvidos 50.890 estudantes de ensino fundamental e médio em todas as capitais e no Distrito Federal. Deles, 0,6% admitiu já ter usado crack ao menos uma vez na vida. Parece pouco se comparado ao número dos que já provaram maconha (5,7%) ou álcool (60,5%). Mas não é. “As pessoas de bom-senso sabem que estamos diante de uma epidemia de crack”, diz o médico Drauzio Varella, favorável à internação compulsória.
A comparação entre o número de usuários de crack e os de outras drogas, como maconha e álcool, também não revela a magnitude dos prejuízos físicos e sociais que cada uma dessas drogas produz. “Existem dois tipos de usuário: aqueles que usam compulsivamente a droga até acabar e que, tão logo acabe, partem em busca de mais e aqueles que fazem um uso controlado da substância”, afirma o psiquiatra Elisaldo Carlini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “A grande maioria dos usuários de crack pertence ao primeiro grupo.” A necessidade de repetir o êxtase obtido no consumo da pedra pode levar o viciado a abandonar a própria casa e a família e a cometer crimes. Maltrapilhos, vagando pelas ruas em meio a lixo e entulho e sob o constante delírio provocado pelas baforadas de crack, eles parecem estar completamente desprovidos da capacidade de escolher, de exercer as próprias vontades com autonomia. De acordo com os defensores da medida, esse estado degradado dos dependentes justifica a internação compulsória.
A vida de A., de 14 anos, é uma sucessão de evidências favoráveis a esse argumento. Viciada em crack desde os 9, ela chegou a se prostituir para comprar a pedra. Nas cracolândias, contraiu HIV, sífilis e tuberculose. Internada compulsoriamente no Rio há dois meses, tenta se recuperar do vício. Simpática, revela, ao fim de cada frase triste, um sorriso banguela. O dente perdido é uma das consequências de sua compulsão química. Desesperada para fumar e sem dinheiro, aos 11 anos A. surrupiou uma pedra de R$ 5 do estoque de um traficante. Descoberta, levou uma surra que lhe extirpou parte do sorriso. Nas regras de conduta rígidas do crime, é razoável considerar que A. teve sorte de não ter sido morta. Os criminosos parecem ter entendido antes do Estado o potencial devastador do crack. Nas cadeias brasileiras sob mando do crime organizado, a lei tácita dos presos é taxativa: é proibido o consumo de crack atrás das grades. “Nos presídios do país, as facções chegaram à conclusão de que era melhor abolir o crack porque o uso acaba por interferir na hierarquia da cadeia e atrapalha o negócio. Se você fuma crack dentro da cadeia, toma uma surra que nunca mais esquece. E, se você trafica, eles te matam”, diz Drauzio Varella.
Fora dos presídios, nem o Estado nem as famílias conseguiram exercer um controle sobre o uso do crack tão estrito como o imposto pelas facções criminosas. Nenhuma das tentativas feitas pela camareira Terezinha dos Santos, de 38 anos, do Rio de Janeiro, de amarrar os pés e as mãos da filha para mantê-la em casa funcionou. Viciada em crack, era comum que J. passasse temporadas fora de casa. “Ela saía de casa arrumada, com uma roupa bonita. Voltava dias depois, com outra roupa, fedendo, machucada, faminta e agressiva”, diz Terezinha. “A gente sabia que ela saía, mas não sabia se voltava.” Da última vez que fugiu para a cracolândia, J. não voltou. Foi encontrada pela equipe de assistência social do Rio dez dias depois de ter saído de casa. Ela resistiu à abordagem e não admitia estar grávida de oito meses. Como já tinha 22 anos, não poderia ficar internada compulsoriamente sem uma decisão judicial. Depois de capturada pela assistência social, ela teria direito a sair do abrigo.
A prefeitura do Rio e a mãe da garota recorreram ao Judiciário. “Foi uma luta para conseguir uma decisão judicial que obrigasse ela a ficar internada”, diz Terezinha. J. passou o fim da gravidez num quarto de hospital vigiado por policiais, que a impediram de fugir. Depois de nascer, o bebê teve de passar por uma desintoxicação durante dez dias. “Ela não tinha noção do que estava fazendo, não tinha como decidir nada, e isso era claro. Mas eu não conseguia interná-la à força porque o processo judicial é complicado”, diz a mãe. A depender do Legislativo, é possível que outras mães sejam poupadas do périplo de Terezinha. O deputado federal Osmar Terra (PMDB-RS) propôs, em projeto de lei, extinguir a necessidade de uma decisão judicial para internar um dependente à força. A palavra de um médico bastaria como aval para que a família ou o Estado ponham, na marra, crianças ou adultos em hospitais. A proposta já foi aprovada na Comissão de Seguridade Social da Câmara dos Deputados e deverá ser encaminhada ao plenário nos próximos meses. Se aprovada, permitiria uma onda de internações compulsórias.
A aprovação da lei pode gerar uma grande discussão judicial, já que alguns juristas interpretam-na como inconstitucional, por ferir o direito de ir e vir garantido aos cidadãos pela Carta Magna de 1988. A Ordem dos Advogados do Brasil manifestou-se publicamente contra a medida da prefeitura do Rio. “As pessoas maiores de idade, salvo se interditadas, podem praticar todos os atos da vida civil: podem votar, podem casar, ir aonde quiserem. Em hipótese alguma, podem ser compulsoriamente internadas. Vou até mais longe: se o Kassab e os outros governantes insistirem nisso, correrão o risco até de parar num tribunal penal internacional por praticar crime contra a humanidade”, afirma o jurista Wálter Maierovitch. Os defensores da medida lembram que a mesma Constituição garante o direito à vida aos cidadãos. “Vamos botar na balança: o que é mais importante? O direito à vida e à saúde ou o direito de ir e vir?”, diz o promotor Marcelo Luiz Barone, de São Paulo. Barone faz parte do grupo do Ministério Público paulista que se dedica a estudar formas de pôr em prática uma interdição judicial coletiva aos crackeiros da cidade. “O bem maior garantido pela Constituição é a vida do ser humano”, afirma.
O tema é especialmente sensível porque, há mais de 20 anos, o movimento mundial antimanicomial luta para pôr fim aos hospitais psiquiátricos, em que se encarceravam por décadas doentes mentais e dependentes químicos. “Nenhum país democrático do mundo tem instituições fechadas”, diz a vice-prefeita de São Paulo, Alda Marco Antonio (PMDB), que acumula a função de secretária de Assistência Social. A despeito de ser integrante da gestão Kassab, Alda se opõe à internação compulsória. A Europa descreveu o caminho oposto àquele ao qual o Brasil parece rumar na tentativa de combater a dependência química. Diante dos maus resultados dos parques de consumo, em países como Suíça e Holanda, os governos locais optaram por criar as “narcossalas”, espaço em que o uso da droga é liberado, mas controlado, e em que se aplicam técnicas de redução de danos. De acordo com o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), nenhum país do continente adota medidas de internação compulsória.
Nos Estados Unidos, o Estado propôs outra maneira de levar viciados ao tratamento. Criou cerca de 1.400 tribunais exclusivos para os usuários de drogas, em todo o país. Dependentes químicos apanhados com drogas, em vez de prisão, são obrigados a ficar internados para combater o vício. No Brasil, desde 2006, os usuários de droga não podem ser punidos com prisão. Os críticos da adoção da internação compulsória como política pública veem na medida uma reversão da tendência mais humanizada no tratamento aos viciados em drogas. Segundo essa visão, seria aberto um perigoso precedente para a reedição, no mundo real, de enredos como o do filme Bicho de sete cabeças, em que um usuário de maconha é internado à força num manicômio. O assunto divide até mesmo o governo federal. Segundo ÉPOCA apurou, o Ministério da Justiça aceita discutir a ideia da internação forçada. No Ministério da Saúde, há resistência.
Há ainda a discussão sobre a eficácia da internação compulsória. Os psiquiatras dizem que ela pode funcionar ou não – e que o sucesso da internação, voluntária ou involuntária, depende da reinserção social e do acompanhamento cuidadoso do paciente depois da alta. “Nos casos mais graves, a internação é a alternativa mais segura. O ideal seria que ninguém precisasse disso, mas a dependência química é uma doença que faz com que a pessoa perca o controle”, afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, favorável à medida.
Baseado em sua própria experiência, João Victor Melhado, de 29 anos, coordenador de uma casa de tratamento de dependentes químicos, é taxativo ao discordar e dizer que internar à força não funciona. Durante seis anos, ele foi viciado em crack. Chegou a gastar R$ 1.200 por mês em drogas. O desespero da família de classe média, do interior paulista, levou-o a nove internações. Numa delas, foi carregado na marra. “Acordei com três caras em volta de mim. Eles me algemaram e me enfiaram num camburão. Eu nem sabia se estava sendo levado para a prisão. Só descobri depois de chegar lá que estava numa clínica particular de recuperação”, diz Melhado. Em dois meses, ele conseguiu fugir do lugar e voltou ao crack. Sua recuperação só aconteceu quando, em 2009, por vontade própria, ele se internou. Passou um ano em tratamento. Está há dois anos sem usar drogas e agora trabalha para recuperar outros jovens. “Não adianta chamar ambulância, forçar, enjaular. Eu já passei por isso e sei que não recupera ninguém”, afirma Melhado.
A garota A., do Rio, afirma que é somente graças à internação forçada que ela está viva. Faltava à menina discernimento e condições psíquicas de pedir ajuda. “Cheguei aqui pesando 23 quilos. Agora estou com 50 e poucos. Aqui é tudo bom, tem comida na hora certa, os educadores são bons”, diz. Ainda assim, o comportamento de A. não dissimula a dificuldade da jornada. Entre os sorrisos e as brincadeiras, ela implora a uma das educadoras um cigarro para saciar sua fissura.
Além da discussão legal, médica e filosófica, há problemas práticos. O Estado brasileiro dispõe de escassas vagas para internação – compulsória ou não – e tratamento de dependentes químicos. Em São Paulo, há 317 leitos para esse fim, entre parcerias com instituições privadas e o serviço da própria prefeitura, criado no ano passado nas instalações de um antigo motel. O problema se repete sistematicamente nos grandes e pequenos municípios do Brasil. E manter essa população internada sai caro. No Rio de Janeiro, cada criança abrigada compulsoriamente no serviço da prefeitura custa cerca de R$ 3 mil por mês. Em São Paulo, a manutenção de hospital com 80 leitos municipais exige R$ 1,3 milhão mensais.
SEM AUTONOMIA
Aglomeração de usuários de crack no bairro da Luz, em São Paulo, por onde circulam cerca de 2 mil pessoas por dia. A prefeitura estuda adotar a internação compulsória porque entende que os dependentes não são mais responsáveis por si mesmos Uma alternativa tem sido encaminhar dependentes a comunidades terapêuticas, a maioria ligada a instituições religiosas. Uma das maiores em atividade no Brasil, a católica Fazenda da Esperança abriga quase 2 mil pessoas em 55 unidades espalhadas pelo país. O tratamento, que dura um ano, consiste em manter uma rotina de trabalho e convivência comunitária e exercitar a espiritualidade. Não há remédios ou acompanhamento médico. Só são aceitos dependentes que queiram se tratar. Desde janeiro, a Fazenda da Esperança firmou uma parceria com a prefeitura de São Paulo e tem tentado convencer os usuários da cracolândia paulistana a se internar. Até agora, apenas 12 aceitaram a ideia. “O prefeito Kassab veio aqui, demonstrou sua preocupação de não saber o que fazer, eu disse a ele que podia oferecer o nosso jeito”, afirma o idealizador do projeto, o frei alemão Hans Stapel. “Mas o alertei de que não aceito mudanças e não vou internar ninguém à força.”
Segundo Stapel, cerca de 80% dos pacientes tratados por seu método se mantêm distantes da droga, um porcentual de sucesso superior à taxa de recuperação média das clínicas, que recuperam entre 20% e 30% dos dependentes. O papel da religião na recuperação dos viciados provoca controvérsia. “A dependência química é uma doença complexa e requer um tratamento complexo. Não vai ser com oração que você vai tratar adolescente dependente de crack”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira. Mas trabalhos realizados por psiquiatras têm demonstrado que a religião pode funcionar como um meio de reinserção social e afastar o risco da dependência. Em 2004, uma pesquisa feita pela Unifesp com jovens moradores de favelas de São Paulo em que havia prevalência de tráfico de drogas mostrou que aqueles que não se tornavam dependentes químicos atribuíam sua distância dos narcóticos ao respeito à mãe e, em segundo lugar, à religiosidade.
Não há respostas fáceis para o tratamento dos dependentes químicos, especialmente no caso de uma droga tão destrutiva como o crack. “A internação compulsória é um recurso extremo, e não podemos ser ingênuos e dizer que o cara fica internado três meses e vira um cidadão acima de qualquer suspeita. Muitos vão retornar ao crack. Mas, pelo menos, eles têm uma chance”, diz Drauzio Varella. Longe de ser uma solução ideal, a internação compulsória talvez seja a única resposta para os casos mórbidos criados pelo vício em crack.

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                                            Diretoria Grupo OUTROLHAR

quarta-feira, 29 de junho de 2011

REUNIÃO QUINTA FEIRA, 30 DE JUNHO, NA SALA 06 DO CEASC ÀS 11:30

O GRUPO OUTROLHAR CONVIDA AOS SEUS  MEMBROS PARA A REUNIÃO DE FECHAMENTO DO SEMESTRE COM A SEGUINTE PAUTA (A REUNIÃO TEM PRAZO MÁXIMO DE UMA HORA, UMA VEZ QUE HAVERÁ PROVA NA SALA 06).

TEMA 01- APROVAÇÃO DO TRABALHO "ARTE,TRANSDISCIPLINARIDADE E EXPERIÊNCIA" PELA UNIFENAS.Precisamos definir frentes de trabalho e coordenadores discentes para desenvolvimento de PROJETOS DE PESQUISA E EXTENSÃO, na APAC;

TEMA 02- APRESENTAÇÃO DA LISTA DE FREQUÊNCIA INDIVIDUAL ÀS REUNIÕES- Essa lista  será apresentada,também, à coordenação do curso de medicina conforme rege o estatuto;

TEMA 03- APRESENTAÇÃO e  RESULTADO DE APROVAÇÃO DOS NOVOS MEMBROS.

TEMA 04- CONFECÇÃO DAS NOVAS CAMISAS DO GRUPO PARA SEGUNDO SEMESTRE;

TEMA 05- DEFINIÇÃO DO(S) TEMA(S) A SER(EM) APRESENTADOS PELO GRUPO NAS OFICINAS DA  IIJAIMED ;

 DURAÇÃO MÁXIMA : UMA HORA.



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A Diretoria

quarta-feira, 15 de junho de 2011

MOSTRA DE ARTE: A BORDA DO MUNDO

Freud Cidadão é uma clínica de saúde metal, que funciona na Serra (Rua Senador Pompeu, 149) há 2 anos, e que se oferece como um recurso inovador de reabilitação psicossocial a portadores de transtornos psíquicos. Suas atividades diárias apresentam um novo circuito terapêutico e cultural, que promove a cidadania desses sujeitos, por meio do estímulo à participação no cotidiano social, escuta clínica e apoio à autonomia possível. A mostra de arte, A borda do mundo, apresenta à cidade novos olhares sobre as fronteiras: da loucura e da sanidade, do sentido e do non-sense, do dizer e do silêncio, do objeto e do sujeito.

 CONTAMOS COM A PARTICIPAÇÃO DE TODOS!



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A Diretoria de Comunicação